segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Feriado


... submergido por fortes cargas de chuva, e o frio a espreitar-nos noutro lado do vidro húmido e ensopado do bafo quente, vindo dos nossos pulmões. Uma manhã tempestuosa, de nuvens melancólicas e cinzentas, quase negro a mirar zangado os dois gigantes aviões da TAP que sobrevoavam baixinho e devagar acima de nós, na Ponte 25 de Abril.

Os pingos de bebedeira embatiam no pára-brisas, explodindo as lágrimas que lentamente filtravam no ouvido implantado, a tentar encaixar o som da chuva de afecto e ternura em mim, a meiguice e delicadeza do amor nos sons, na melodia pura diante do temporal onde o meu campo de visão contemplava o cenário temível. Travagens bruscas. Acidentes. Trânsito lento. Chuva, muita chuva em toda a parte. O Rio Tejo nem vê-lo, parecia ter sido consumido por um nevoeiro intenso. Confuso. Eram aguaceiros a quedar e abraçar a abundância aquosa.

Loures á vista, abro a porta do carro, e o ar frio atravessa a roupa arrepiando todos os poros da minha pele, não fico indiferente e aviso á minha irmã quase menina-mulher, vestida á executiva, de camisa branca e gravata vermelha com linhas azuis. Está bonita, o visual fica-lhe bem, irreverente e infantil ao mesmo tempo para acanhar bem o casaco. Vai tocar. Música para as pessoas e para o meu ouvido.

No Pavilhão de Loures e da Paz, comoveu, impressionou a plateia e fez-me dançar apalpando as notas musicais dos diferentes instrumentos na orquestra, e eu ali, inconstante, perdida entre a hesitação de ambicionar um desafio crescente… aprender tocar violino aqui, na minha cidade.

Amanhã vou á Timbre pedir umas informações, e assim que for possível falar com o Maestro porque o outro, o da minha irmã afirmou a impossibilidade de uma pessoa implantada distinguir as notas agudas e graves... que sabe ele? Não me deu sequer oportunidade de tentar. Aí, o medo do que é desconhecido. A negação doentia e patética. Um dia já vais ver, desarmo-te e eu irei sorrir.

1 comentário:

oliviacastrocranwell disse...

Eu fico surpresa com a beleza da tua escritura. As tuas palavras soam como imagens e eu posso ver e sentir os sons que vc percebe.
Eu conheço uma implantada que aprende e toca violino, ela teve que insistir e brigar para ser aceita na escola porque, pelo visto, o preconceito e a ignorância é um muro que nos isola das nossas possibilidades. Não desista, você sabe o que ouve, e vc ouve os sons melhor que muitos nornoyentes, o jeito de você transcribir os sons em palavras são uma prova indiscutivel.